Vira duas guerras e
revoluções na Europa. Viera ao Brasil e vivia vida simples.
Quase noventa anos, ainda
trabalhava como massagista.
Mãos assustadoramente
fortes para a idade. Memória de fazer
inveja.
Enquanto fazia seu
trabalho, dava conselhos.
Como não ouvi-lo?
Perdera muito, ganhara uma
vida de filme e uma impressionante coragem, que era percebida em seus gestos.
Ao abrir da porta, o
visitante era surpreendido por dois olhos firmes, um leve e carinhoso sorriso e
mãos fortes, que não só o recebiam, mas praticamente o arrastavam para dentro.
Enquanto tratou de uma
lesão que tive provocada por saltos de trampolim, ficamos amigos.
Que pena, eu era muito
novo para “saber aprender” com aquela amizade.
Terminado o tratamento, poucas
vezes nos falamos.
Fui cuidar de minha vida,
meus estudos, e ele também se foi.
Só descobri quando o
indiquei para um amigo, e recebi a notícia, tempos depois, que já não estava
mais entre nós.
Acredito que foi ele que,
de alguma forma, me disse, que as lições mais contundentes não nos são
ensinadas pelos ganhadores – ainda que belas -, mas pelos perdedores!
Algumas pessoas, apesar
das perdas, não parecem estar recomeçando, e sim continuando do ponto onde
pararam. Não se vê lágrimas, apenas determinação para realizar projetos e
alcançar metas.
Teria aprendido lendo Cervantes?
“Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem
perde a coragem perde tudo.”
Ou quem sabe com
Churchill? “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo.”
Sua marca de vencedor: a
assustadora serenidade!
Pessoa rara, mas que tive
o privilégio de conhecer.
Sempre me perguntava de
onde vinha aquele equilíbrio. Até que tempos depois me dei conta: da coragem!
Coragem não significa
ausência total do medo, levando o soldado a enfrentar um batalhão sozinho. Isso
seria tolice.
Na longa ou curta vida, a
maior prova de coragem é suportar as derrotas sem perder o ânimo.
Gosto também do
ensinamento de Edmund Burke, quando nos diz: “Os que têm muito a esperar e nada
a perder serão sempre perigosos.”]
Faz eco com a frase de
Lawrence da Arábia, que afirma que os homens que sonham acordados são perigosos,
pois de olhos abertos os realizam, tornando-os possíveis!
Malcom X faz um alerta,
pois o comportamento pode ser dirigido para o bem ou para o mal: “A mais
perigosa criação no mundo, em qualquer sociedade, é um homem sem nada a perder.”
Um ditado romeno reforça a
tese: “O lobo pode perder os dentes, porém sua natureza jamais.”
Bob Dylan se junta aos
sábios e pessoas experientes: “Quando não se tem nada, não há nada a perder.”
Quem, como ele, tem uma
história de luta, sabe como é fazer o caminho sem esperar.
Ah, Vandré: quem sabe faz
a hora, não espera acontecer!
Nesta vida, será que nada
é para sempre? Sempre?
Estaria certa Cecília
Meireles? “Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por
perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo
da minha personalidade.”
Entre os fortes Luther
King, acreditando que, com perseverança, é possível: “Devemos aceitar a
decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita.”
E seria nato o poder de
realização ou podemos aprender?
Tom Jobim dá sua dica:
”Assim como o brasileiro foi educado para perder, o americano foi educado para
ganhar".
Quando, firmemente, se crê
que é possível ganhar, está plantada a semente da coragem para recomeçar. Ou,
para os mais fortes, continuar de onde se parou!
Pela lembrança, ao amigo
Antonio, onde quer que esteja!
Ivan Postigo
Diretor de Gestão
Empresarial
Articulista, Escritor,
Palestrante
Postigo Consultoria
Comunicação e Gestão
Twitter: @ivanpostigo
Skype: ivan.postigo

Nenhum comentário:
Postar um comentário